Liderança, interação e conectividade

Vivemos em uma realidade onde as incertezas são elementos constantes, a mudança é condição e não evento, a dinâmica do mercado é volátil e os desafios de um negócio estão cada vez mais relacionados com a sua própria capacidade de adaptabilidade.

O reflexo disso está na complexidade das operações empresariais e no reposicionamento do ser humano em um cenário de Indústria 4.0, no qual a qualidade das conexões entre pessoas e das interações dessas com sistemas de informação e comunicação tornam-se pontos de atenção e, claro, criticidade. São aspectos como esses que revelam uma tendência para relações de trabalho cada vez mais horizontais, que estimulam um ambiente vivo de relações, composto por processos e departamentos mais transversais.

Ao mesmo tempo, temos pontos que nos distanciam da equação perfeita homem-trabalho. Zygmunt Bauman, renomado filósofo polonês, ao refletir sobre a individualização da sociedade contemporânea no Fronteiras do Pensamento (2011), já sinalizava suas preocupações em relação à convivência em rede: a facilidade com que o indivíduo se desconecta, a fragilidade dos laços humanos e a escassez do que ele chama de “conexões de verdade, frente a frente, corpo a corpo, olho no olho”.

É nesse paradoxo que a liderança encontra uma oportunidade: a de desenvolver um novo skillset e atuar em um patamar mais avançado de contribuição individual e coletiva. Tratam-se de habilidades chaves necessárias para o estabelecimento de relacionamentos produtivos e sustentáveis, sejam eles apoiadores de operações de trabalho ou de processos de desenvolvimento, ambas esferas que estão sob sua responsabilidade. Neste papel relacional, duas capacidades complementares merecem destaque: a habilidade de interagir com propósito em situações interpessoais e a de estabelecer um nível de conexão mais genuíno com o outro.

Em nosso contexto, como cenário dessa evolução de papel de liderança estão as empresas, que vêm se transformando com rapidez, e os indivíduos, que passam por um processo gradual de adaptação à Era Digital. Abre-se um leque de novas situações cotidianas impulsionadas pelo fato de o líder ter agora em mãos redes compostas por pessoas que devem exercer papeis ainda mais singulares na operação. Essas pessoas agora são cada vez mais responsáveis por receber, analisar e entregar informações de modo a impactar positivamente na capacidade de dinamismo, eficiência, velocidade e inovação dos sistemas produtivos.

Diante desse desafio, é válido lembrar que o campo de treino para essas habilidades é fértil por natureza. Em um estudo feito em Harvard que durou mais de 75 anos, aproximadamente 720 pessoas foram acompanhadas desde a sua adolescência até a velhice com o objetivo científico de gerar conclusões acerca do real segredo da felicidade. Segundo o psiquiatra Robert Waldinger, diretor da pesquisa, a principal conclusão do estudo foi que a chave para ser feliz e saudável estava na qualidade das relações estabelecidas ao longo da experiência de vida. Em complemento a essa descoberta, o pesquisador Tsedel Neeley, também de Harvard, concluiu em um de seus estudos que um bom trabalho em equipe está diretamente relacionado com o grau de conexão emocional entre os membros do time.

Dessa forma, construir relações sendo uma das necessidades básicas do ser humano e as interações um “meio” para o alcance dos objetivos empresariais, a conectividade surge como habilidade necessária para que a complexidade (do mundo, dos negócios, das operações e das pessoas) seja entendida e incluída em nosso dia a dia de forma a somar e não a dificultar essas relações.

Nessa perspectiva, a liderança assume um papel de elo conector capaz de construir equipes fortalecidas a partir da sua própria capacidade de relacionamento. Além disso, essas conexões são estimuladas e mantidas através da abertura de espaços de diálogo, da valorização da escuta, do interesse por gerar compreensão, da promoção de conversas inclusivas e, claro, da reciprocidade ao dar e receber atenção.

Tudo isso faz parte de uma nova dinâmica que se estabelece, apresentada pelo consultor Ricardo Guimarães como uma conjuntura que coloca o indivíduo no centro da mesa. De acordo com ele, o ser humano passa a ser “um personagem muito poderoso […] conectado em rede que acessa tudo e a todos o tempo todo”, lógica essa que também traz uma provocação:

Se o papel do ser humano nas organizações está mudando e a interação é o instrumento da liderança para geração de um novo patamar de conectividade com as pessoas, por que ainda tratamos o tema Comunicação da mesma forma que há anos atrás?

Para buscarmos respostas, o primeiro passo é reconhecermos que a conectividade humana é um dos nossos desafios contemporâneos. Isso por vários motivos, alguns já mencionados neste texto. Outros também comprovados em pesquisas científicas que demonstram a forma como nós, seres humanos, temos explorado nossa capacidade de foco e atenção em nossas interações com o mundo. É nesse reconhecimento e nessa ampliação de consciência que está o nosso ponto de partida.

Espera-se que as empresas do futuro sejam sustentadas por relações de confiança, autonomia e responsabilidade.

Espera-se que essas relações sejam construídas por redes mais humanas dotadas de uma visão compartilhada e global de negócio.

Este convite já foi lançado e o seu aceite torna-se uma questão de sobrevivência. Torna-se também uma experiência recompensadora, visto que isso significa assumir um compromisso com o próprio desenvolvimento enquanto liderança e no autodesenvolvimento mora as principais fontes de realização e felicidade.

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Referências:

Zygmunt Bauman, em “Fronteiras do Pensamento”

Ricardo Guimarães, em “Natura: Contexto de Mundo”

Robert Waldinger (Harvard University)

Tsedel Neeley (Harvard University)

Theresa Wiseman (Southampton University)