O novo líder — de si mesmo e de outros

Diante de um mundo complexo, o que é esperado de nós?

A forma de fazer negócios, nos relacionarmos, sermos líderes ou liderados, as decisões que tomamos (e as que deixamos de tomar) e os métodos de influência tornaram-se mais complexos e requintados nos últimos anos. O universo digital transformou também a vida offline. Novos modelos de negócio surgiram, a hierarquia passou a ser mais horizontalizada, a gestão precisou se atualizar e o mercado teve de agir rapidamente para competir com o caráter disruptivo que as novas tecnologias implicaram à economia. As mudanças nunca foram tantas e tão profundas em um pequeno período de tempo.

O “Mundo VUCA”, descrito em 1990 como Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo, nunca foi tão atual. As próprias características deste mundo podem ser consideradas “efeitos colaterais” da mudança estrutural das sociedades. Isso transformou tudo, inclusive o ambiente de negócios.

Dentro deste contexto, o que o mundo espera de nós? Que tipo de profissional (e por que não, seres humanos) devemos ser? Que respostas devemos buscar frente à tamanha volatilidade? O que essas incertezas dizem sobre nosso presente? Que complexidade podemos esperar desse futuro ambíguo? Respostas a questões tão profundas, é claro, não são simples ou únicas. A certeza que temos hoje é de que a mudança será uma constante.

Diante de um convite para encontrarmos conforto no desconforto, uma das respostas possíveis é agir de forma rápida e transformadora de modo a acompanharmos a agilidade deste cenário que se apresenta. Esse profissional do futuro não deve apenas estar preparado para o mercado, mas também ajudar a forma-lo. De acordo com a INSEAD Business School, esse indivíduo deve integrar habilidades de gestão e liderança em um único papel, conhecido como dirigente ou líder transformador.

Segundo Betânia Tanure, “enquanto o líder opera mais na mobilização das pessoas, o gestor cuida essencialmente da eficiência operacional de um negócio. A integração das duas dimensões — emocional e racional — é a chave do crescimento da empresa”. Este conceito (ou conselho), por sua vez, não está diretamente relacionado apenas ao topo da pirâmide: “pessoas de qualquer nível hierárquico podem ser dirigentes em sua esfera de atuação; basta que trabalhem integrando tarefas e relações e que tenham a coragem de mudar o fluxo natural das coisas”, frisa a PhD.

Em outras palavras, o líder do futuro (seja de si ou de outros) é aquele que consegue imbuir-se do chamado Mindset Bimodal, conceito emprestado da área de Tecnologia da Informação. Esse modus operandi nos convida a pensarmos em duas perspectivas. Se por um lado entendemos o mundo e as tarefas de forma estruturada, complexa e planejada (Modo 01) a fim de melhorar processos, onde o foco principal se concentra na eficiência operacional e no trabalho contínuo para a redução de problemas, o outro (Modo 02) tem um foco de gestão voltado para o flexível e o experimental, considerando entregas mais rápidas em ciclos adaptativos.

O Modo 02 convida-nos a pensar sobre qual será a próxima curva, quais serão as novas mudanças e próximos ciclos de inovação. Isso, sem nunca perdermos de vista o momento presente (Modo 01). É ter consciência de que o que fazemos hoje será diferente do que faremos amanhã — e estarmos preparados para isso.

Neste sentido, o líder transformador não opera apenas na manutenção e na melhoria contínua, tampouco se restringe à mudança radical. Seu foco não é só estratégia, processos e estrutura, ou pessoas, liderança e cultura. Juntando tudo isso, ele reconhece o fluxo natural e toma a decisão de alterá-lo, com coragem e garra, como exige o mundo empresarial de hoje. Tem um propósito claro, uma visão de futuro, que ilumina suas decisões, orienta suas ações e é comunicado. E é capaz de assumir os riscos.

De acordo com pesquisas realizadas por Tanure, em parceria com a Wharton University e a London Business School, há um conjunto de traços e elementos comuns a esses profissionais plurais. Essas pessoas, para o bom exercício do papel proposto, são dotadas de uma visão de futuro, com propósitos claros e capacidade de compartilhá-los a fim de criar significado. Também prezam por sua credibilidade frente aos demais e agem inspiradas por valores pessoais, como justiça e confiança.

Capazes de gerar (e gerir) relacionamentos mobilizadores, essas lideranças tocam o coração e a alma das pessoas. Para isso, um dos principais requisitos é a comunicação competente, além da capacidade de tomar decisões baseadas em um propósito maior e influenciar outros de forma verdadeira e genuína.

Outra habilidade desta liderança é o chamado comportamento agridoce, ou seja, a capacidade de combinar opostos. De acordo com a pesquisa realizada, o profissional pode gerar sofrimento no outro, mas ajuda a cuidar dele (o que não se refere ao “morde e assopra” de culturas paternalistas).

Para que todas essas características e habilidades possam coexistir, é fundamental que o indivíduo tenha um elevado grau de autoconhecimento, conheça sua voz interior e seja capaz de reconhecer seus pontos fracos, bem como suas fortalezas.

Diante deste panorama, a agilidade de aprendizagem é peça-chave para que conexões como essas possam ser feitas. Isso porque somos estimulados a encarar paradoxos de frente que nos provocam para pensamentos e ações diferentes. Manutenção e inovação, planejamento e prototipagem, diversidade e unicidade, caos e simplicidade. Tudo coexiste. E para intervir nessa realidade, devemos atingir um novo estágio de consciência humana, no qual conhecemos quem verdadeiramente somos, nos comportamos à luz de um futuro desejado e construímos relações baseadas na reciprocidade e confiança de modo a mobilizarmos no outro mudanças de valor.

A pesquisadora norte-americana Carol S. Dweck propõe que todos somos capazes de aprender, nos especializarmos, desenvolvermos e, assim, expandirmos nosso impacto na cultura da qual fazemos parte. À luz desta provocação, como deve ser o líder do futuro dentro do negócio? Como ele toma decisões? De que forma constrói relações?

Quando o assunto é lideranças, são essas as perguntas que precisamos ter resposta. Fica lançado o desafio.

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Fontes:

O líder transformador, de Betânia Tanure (INSEAD Business School).

VUCA 2.0: A Strategy For Steady Leadership In An Unsteady World, de Bill George (Revista Forbes).

A Framework for Understanding VUCA, de Scott Berinato (Harvard Business Review)

Mindset — A nova psicologia do sucesso, de Carol S. Dweck