REVERSE MENTORING: o que os mais jovens tem para oferecer?

Vivemos em uma era de mudanças constantes em que estímulos vindos do mercado nos convidam a evoluir. Não é por acaso que falamos tanto de inovação. Essa palavra é chave dentro de uma organização moderna e apta a evoluir a partir das novas demandas do mundo. Quando paramos para perceber como o mercado está se desenhando neste novo momento, notamos que a colaboração é a principal aposta para inovar. Isso porque a ciência já nos mostra que boa parte do desenvolvimento da capacidade de entrega de um time se dá com e a partir da interação entre as pessoas. A construção de relacionamentos colaborativos e produtivos acelera resultados a partir do acréscimo de diversos pontos de vista para analisar, prototipar e executar novas soluções.

O momento em que nos encontramos possui caminhos fáceis para nos levarem ao individualismo. São tempos duros, mas também são em momentos como esse que surge na humanidade uma busca por caminhos alternativos e saídas férteis e criativas. Ao mesmo tempo, na contramão da dificuldade individual e coletiva de lidar com o divergente, a valorização e o discurso pelo diverso ganham cada vez mais força. Grandes empresas como a Google apostam na diversidade como força-motriz para o desenvolvimento de equipes mais múltiplas e ricas em geração de resultados. Isso porque quanto maior for a diversidade humana contida em uma empresa, maior será a multiplicidade de talentos, pensamentos e soluções. A diferença gera de forma natural um ambiente mais desafiador. Não é à toa que um dos sinônimos de diversidade é multiplicidade. Nosso cérebro pode reagir de forma díspar — ou mesmo oposta — ao desigual, mas uma coisa é certa: quando verdadeiramente incorporada, a diferença sempre gera resultados mais criativos e soluções mais inovadoras.

Tudo isso soa muito bem, mas, como humanos que somos, nem sempre temos facilidade de lidar com o diferente. Temos dificuldade de acolher a postura e as ideias alheias de forma respeitosa e humilde e de transpor as barreiras do nosso ser e colocarmo-nos no lugar do outro. Afinal, abrir-se para diálogos reais com o outro requer que deixemos de lado parte do nosso ego — aquele que faz com que durante uma conversa estejamos constantemente rebatendo mentalmente os argumentos ouvidos — para praticar uma das tarefas mais simples e complexas da troca humana: escutar. Segundo a psiquiatria de Freud somos, por natureza, seres egoístas e individualistas. Mas nossa índole vai além. Neurocientistas, biólogos e psicólogos vêm tentando provar nos últimos anos que além dessas características, também somos Homo empathicus. Isso significa que nosso cérebro está equipado com “circuitos da empatia”, prontos para serem ativados.

De acordo com Roman Krznaric, historiador com PhD em sociologia política e fundador da The School of Life, conselheiro da Oxfam, Nações Unidas e com obras publicadas em mais de vinte idiomas, uma importante descoberta da ciência são os “neurônios-espelho”. “Trata-se de neurônios que são ativados tanto quando estamos experimentando algo (como dor), como quando vemos outra pessoa passando pela mesma experiência”. O importante de ser frisado sobre isso é que todo ser humano possui um potencial empático latente, à espera de um estímulo. Ainda de acordo com Krznaric, se a Regra de Ouro diz “Trate os outros como gostaria de ser tratado”, ela não dá conta de situações em que a cultura e a visão de mundo do outro divergem das nossas. Seria preciso ir além, adotando a Regra de Platina: “Trate os outros como eles gostariam que você os tratasse”.

Desse contexto surge um novo termo que vem sendo bastante utilizado em ambientes corporativos e de desenvolvimento humano: mentoria reversa. Quando pensamos em relações de mentoria, automaticamente enxergamos profissionais mais velhos guiando os mais novos, oferecendo insights ganhos através de anos de trabalho duro e de muita experiência. Porém, na mentoria reversa o que acontece é exatamente o contrário: funcionários mais jovens oferecendo uma nova perspectiva sobre determinados temas para os colegas com mais tempo de casa.

Com avanços tecnológicos ocorrendo a todo o momento, aqueles que nasceram em meio a essa turbulência de informações, os chamados “nativos digitais”, tem maior facilidade para acompanhar, aprender e se adaptar as mudanças que movem o mercado. É necessário que se estabeleçam aproximações mais casuais, que humanizem as relações profissionais. A capacidade de transpor sua situação e vivência para imaginar-se na pele do outro é uma característica essencial do ser empático (que somos, ou queremos nos desenvolver para ser).

A pessoa que carrega e cultiva a empatia só tem a ganhar quando se abre verdadeiramente a novas experiências. Essas pessoas usam e abusam da troca e da conversa. Cada novo encontro é visto como uma oportunidade de ultrapassar as barreiras do “self” e de conectar-se com o mundo — que também é o outro — de forma profunda e verdadeira.

A maior lição que podemos tirar da mentoria reversa é que cada um de nós é expert em determinado assunto e , portanto, a tradição têm de ser deixada para trás e as habilidades de empatia devem entrar em prática. Ou seja, tem espaço para todos no mercado, no qual todas as vozes precisam ser ouvidas para que se forme um ciclo constante de trocas de experiências valiosas tanto na vida profissional quando pessoal de cada um.

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